Carta para Tia Tita
20 de julho de 2016

Metamorfoses ambulantes

Daiana Geremias

Era o dia da minha mudança. Malas e mais malas, colchão enrolado, coisas que quebram embrulhadas em jornal velho. Faltava apenas um armário pequeno para eu pegar com calma e separar o que levaria comigo, o que ficaria na casa de minha mãe e o que finalmente seguiria para o lixo.

Sempre apresentei uma certa resistência em desfazer de coisas antigas; guardava as roupinhas de boneca, as figurinhas de bala, o ioiô da Coca-Cola, fichas telefônicas, cartas, fitas de vídeo, canetas que não funcionam mais.

E foi em meio a tanta bagunça que encontrei um caderno, encapado com papel preto. A primeira página denunciava: um caderno de confidências! Sorri ao ler o ano. 1996. Exatos dez anos!

Comecei a ler as perguntas e respostas. Eu, na época, com nove anos. Havia assinaturas ali de gente que eu nem lembrava que existia. Engraçado.

“Você é B.V.?” Quase morri de rir. A sigla significava “boca virgem”. Eu respondi que não. Mentira! Meu primeiro beijo foi aos onze. Mas todos haviam dito que não eram. Um mentira coletiva, creio eu.

“Qual seu livro favorito?”. Respondi que amava qualquer um da série Vaga-Lume e os da Bruxa Onilda, que eu achava divertidíssima.

“O que você quer ser quando crescer?” Segundo meu caderno, eu seria professora e escritora. Teve um amigo que respondeu que seria adulto. Acho que ele era o mais certo, mesmo que com a intenção de parecer apenas engraçado.

“O que você acha da dona do caderno?” Essa sempre tinha em qualquer caderno de confidências, geralmente entre as últimas perguntas, o que era um erro porque o cidadão já estava cansado de responder a tantas perguntas e a resposta para essa era sempre a mesma: “legal”.

Fechei meu caderno e comecei a pensar nisso: não existem mais cadernos de confidências hoje em dia. Até pai e professor assinavam. Dava-se até um jeito de conseguir assinaturas dos meninos da 8ª série, pra fazer inveja às amigas…

Terminei de arrumar a minha mudança e percebi que, realmente, tudo muda. Inclusive eu que, estranhamente, saio de casa com 19 anos e não apenas vou até a padaria comprar aquelas balinhas que estouravam no céu da boca e depois dormir na casa da vizinha, brincando de Aquaplay.

O que não muda, porém, é essa necessidade que todo mundo tem de pensar nostalgicamente sobre a evolução de tudo que um dia já se considerou imutável.

Daiana Geremias  é jornalista.
http://universoparalego.wordpress.com

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